Artes Liberais, C. S. Lewis, Civilização Ocidental, Cristianismo, Educação, Educação Clássica, G. K. Chesterton, História

“Lembrai-vos das Coisas Passadas” — Educação, História e Memória (parte 2)

Por William Estaquio

DESPOJE-SE, por um momento, de seus preconceitos (ou busque esforçar-se por fazê-lo), essas ervas daninhas que usualmente prejudicam nosso entendimento de todas as coisas. Não se pode definir qualquer coisa com base na mera experiência subjetiva, pois seu significado objetivo é crucial. Tornarei isso claro. É possível que, ao ouvir essa palavra (educação), surja em sua mente a imagem de uma escola, o desempenho desastroso do sistema educativo, o baixo nível de instrução dos formados, experiências lamentáveis de sua própria vida, e assim por diante. Pouco ou nada de bom e atrativo chega aos seus sentidos ao pensar nesta palavra. Talvez lembre-se também de vazios e imprecisos discursos por parte de políticos (outra palavra corrompida), promessas não cumpridas e investidas fracassadas. Quão digno de lamento é perceber o quanto o abuso de uma coisa pode depreciá-la aos olhos das massas! Não é assim com tudo? Artes, ciências, objetos, bebidas e alimentos até. E, no entanto, é uma verdade universalmente reconhecida (ao menos pelos sábios) que os extremos devem ser evitados, que deve o homem buscar o “meio-termo” ou a moderação.

Lance de você, repito, os preconceitos e noções infundadas, e apegue-se ao que de fato é a educação. Não disse Chesterton que ela é a própria alma de uma sociedade a passar de uma geração à outra? E não disse Jaeger que ela é o princípio por cujo intermédio uma sociedade conserva e transmite sua forma de vida? É capaz de enxergar um padrão? Educação, conservação, transmissão, geração. Já forma-se em nossa mente um cenário. E, de fato, também diz-nos Chesterton noutro lugar:

Educação é uma palavra como ‘transmissão’ ou ‘herança’. Não é um objeto, mas um método. Deve significar a transmissão de certos fatos, pontos de vista ou qualidades a cada criança que nasce. Podem ser os fatos mais triviais, os pontos de vista mais ilógicos ou as qualidades mais repulsivas, mas, se passados de geração em geração, são educação. […] Educar é dar algo — talvez veneno. Educação é tradição, e tradição (como o nome implica) pode ser traição.”[1]

Semelhante entendimento pode ver-se nas palavras de Durkheim (com quem alguém como eu não pode concordar tantas vezes), ao declarar que “a educação consiste numa socialização metódica da nova geração”[2]. Mas esta socialização não deve restringir-se a uma mera “adaptação ao ambiente” (que é o enfoque dado por certas filosofias de ensino, especialmente o pragmatismo). Ora, o processo dinâmico e contínuo de receber, avaliar, conservar e transmitir uma cultura é educação. Estão inclusos os conhecimentos adquiridos, alcançados ou acumulados com o passar do tempo de todas as ciências. O que é, pois, uma ciência? No sentido que a utilizo (que foi perdido ou desgastado pelos modernos), uma ciência é nada mais que um “corpo de conhecimento organizado”; um “domínio do saber”. A palavra vem do latim scientia: literalmente, “conhecimento”[3]. Referimo-nos também a elas como “disciplinas”, de modo que cada disciplina (física, história/geografia, filosofia, teologia, etc.) consiste-se num modo singular de alcançar certo tipo de conhecimento[4]. Cada ciência fornece-nos um tipo específico de saber, e cada uma delas utiliza modos de investigação apropriados a seus propósitos particulares. Desse modo, os meios de investigação das ciências naturais (e.g. física, biologia, química) não são apropriados para o estudo das ciências humanas ou morais (e.g. política, história/geografia, ética), assim como os utilizados pelas ciências humanas não são adequados para alcançar-se o conhecimento fornecido pelas ciências filosóficas (e.g. epistemologia, metafísica), ao passo que todos esses modos juntos são apropriados para o estudo da “ciência-mãe”, ou a “rainha das ciências”: a teologia (ou filosofia; o estudo da “causa primeira”). Veja, então, que a educação é um processo ordenado, sistemático, que também respeita as fases da vida do homem. É o estudo organizado de tudo o que tem sido descoberto sobre a realidade, ou o cosmos, em todas as suas partições. Mas não percamos de vista o caráter amplamente uno da educação, devido ao caráter amplamente uno da realidade. Uma das mais perigosas faltas da educação moderna é a perda do sentido de unidade, de modo que as disciplinas têm sido estudadas separadamente, tal como se fossem “compartimentos estanques”, o que desrespeita sua natureza própria e impossibilita o estudante a ver as coisas como realmente são, e a ter uma vida integrada, ordenada, disciplinada, sábia e virtuosa. É o problema a que aludiu Dorothy Sayers ao dizer:

Quantas vezes você já topou com gente para quem, por toda vida, ‘uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra’, separada de todas as demais, como se estivessem separadas em compartimentos estanques? Tanto, que elas sentem grande dificuldade em estabelecer associação mental entre, digamos, a álgebra e a ficção policial, entre o saneamento básico e o preço de salmão — ou, de maneira mais genérica, entre esferas distintas como as do conhecimento filosófico e o econômico, ou o químico e as artes?[5]

Porém não é minha intenção aprofundar-me nisso. É o bastante dizer que certas visões educacionais, que competem com o modo clássico de educação que perdurou por séculos, surgem de e são sustentadas por visões de mundo[6] fundamentalmente desiguais, e, portanto, ao mesmo tempo que negam o sentido de unidade da realidade[7], negam também a existência de uma verdade absoluta, uma posição que informa tanto seus meios quanto seus fins.

A educação é o meio pelo qual mantemos a alma de nossa civilização na memória. Um autêntico cidadão é alguém que, se preciso for, “pode recriar sua civilização”. Entretanto, ninguém nasce apto para fazer semelhante coisa. Ninguém nasce apto para conhecer a cultura, estudá-la, entendê-la, ser por ela nutrido, e então transmiti-la à geração seguinte. Sabemos também que (seguindo a ilustração de Chesterton) uma cultura precisa ser constantemente renovada. Não pode ser deixada “à própria sorte”, assim como tudo o que há de valioso neste mundo (tal como a amizade, o matrimônio, a família, a saúde, etc.). No tocante à cultura, porém, trata-se de um processo não pouco exigente, apesar de ser também muitíssimo gratificante. A educação não simplesmente enche uma pessoa de dados, tal como se enche um celeiro até o topo. Sua preocupação não é unicamente os “fatos”, como era ao monstruoso Gradgrind em Tempos Difíceis, que exemplifica numerosos professores e pais que solapam a integridade de seus alunos e filhos ao enfocarem tão somente o acúmulo de dados, sem que, antes, tenham formado a mente deles para recebê-los. Uma educação genuína reconhece que antes do preenchimento da mente deve vir a formação da mente[8]. Do mesmo modo que um solo precisa ser arado e fertilizado para então receber a semente, assim também uma mente não cultivada, que não foi formalmente desenvolvida jamais poderá lidar apropriadamente com os dados que recebe. É evidente que o trabalho de preservar e renovar a alma de nossa comunidade exige de nós conhecimento e entendimento tradicionais. Afinal de contas, como concluiu Eliot, “a tradição é o meio pelo qual a vitalidade do passado enriquece a vida do presente”. Contudo, a fim de entendermos o que é a nossa sociedade e como podemos preservá-la e melhorá-la, precisamos ser treinados com as habilidades necessárias para tal. E, na verdade, para aprender-se qualquer coisa, é necessário treinamento, de modo que a educação deve preocupar-se em “ensinar a aprender”.

Ora, pode alguém questionar-me se não é o bastante que conheçamos certos fatos básicos de cada disciplina. Isso já acontece nas escolas e nos lares, porém esta é a pior forma de educação. A educação progressista, por exemplo, tem a intenção de modificar nossa civilização (“modificar” é na verdade um eufemismo), já que não atribui a ela algum valor. Visa, portanto, combater princípios morais fundamentais que considera ultrapassados, introduzindo ideais que atendem a seus planos de ação. Para o progressista (seja ele um professor, um pai, um pedagogo), uma escola funciona quase como uma agência de serviço social, e sua atenção está voltada unicamente ao “aqui e agora” — isto é, ao que é material e atual. A noção de que existe uma Verdade, de que ela é conhecível, e de que a educação deve preparar um ser humano a buscá-la e encontrá-la, é digna de chacota e desprezo nos cenários dominados pelo progressismo[9]. A razão por que a doutrinação política é uma das marcas cardinais da educação progressista é, em síntese, o propósito de manipular o pensamento do estudante, ensiná-lo o que pensar (e não como pensar; note o contraste) a fim de conformá-lo a seus objetivos com respeito à cultura[10].

Não obstante, o mero aprendizado de fatos e dados não é o bastante para educar-se ninguém. Educação não é mera instrução. É essencialmente moral. Educare e paidevo são termos com forte conotação moral. Educare carrega a ideia de “criar”, “alimentar”, “instruir”, e “ter cuidado”. Ducere transmite a ideia de “conduzir” e “guiar”. Há aqui, portanto, um processo de “guiar para fora” e “trazer para fora a partir de dentro”. Como explica Peter Kreeft:

Assim como braços, pernas, mãos, coração, cérebro, pulmões, e todos os outros membros formam um único corpo humano — e como enredo, personagens, cenário, tema e estilo criam uma única história, — todas as disciplinas de um currículo educacional formam uma única coisa: uma educação, um educare, um guiar para fora e guiar para cima em direção à luz. É uma mudança, como uma operação ou nascimento: uma mudança no estudante. É uma mudança das trevas para a luz, da mente pequena para a mente alargada, isto é, da ignorância para o conhecimento, e (muito mais importante) da tolice para a sabedoria.[11]

O elemento platônico aqui é muito claro. No livro VII de sua obra A República, o filósofo grego Platão estabelece uma analogia entre o processo de educação ou paideia e a saída de um homem de sua morada subterrânea, ou caverna, onde ele via somente as aparências ou sombras das coisas (e não sua verdadeira natureza), por mais que julgasse antes ver sua pura realidade. Este homem é libertado das amarras que o prendiam ao fundo, e caminha, ainda com dores, em direção à luz que penetra pela entrada, e o deslumbramento o impede de enxergar por um momento. Veja que imagem fascinante. A educação ascende o homem da mera opinião (doxa) em direção à sabedoria (aletheia), ao real conhecimento das coisas. A questão fundamental da educação não é: “O que farei com este aprendizado?” (que é a ênfase pragmática de nossa educação e mentalidade atuais), e sim: “O que este aprendizado fará comigo?” Sua atenção primordial não é o mero acúmulo de informações. O estudante é um ser humano, e não uma máquina. Lewis[12] menciona que Aristóteles, em sua Ética a Nicômaco, diz que “o objetivo da educação é fazer com que o aluno goste e desgoste do que é certo gostar e desgostar”[13]. E prossegue afirmando que Platão, antes dele, dissera a mesma coisa:

O animalzinho humano não terá logo de cara as reações certas. Ele deve ser treinado para sentir prazer, agrado, repulsa e ódio em relação às coisas que realmente são prazerosas, agradáveis, repulsivas e odiáveis.[14]

Se admitimos que o ser humano possui uma alma (ou espírito), então este cenário todo torna-se ainda mais significativo. Como disse antes, no cerne do conceito de educação está a ideia de “alimentação” e de “nutrição”. Não trata-se da nutrição do corpo (embora isso seja naturalmente parte do processo), mas da alma. Sim, a educação é uma força tão poderosa que atua dentro do homem! Por isso é que uma educação limitada à realidade material é insuficiente para satisfazer as necessidades mais fundamentais do homem e da sociedade. Você deve lembrar-se de que eu disse, antes, que tornar um homem culturalmente instruído não é a única função da educação. Ela possui também uma forte conotação moral. Afinal de contas, nosso pleno desenvolvimento e a preservação de nossa civilização exigem também uma instrução moral. Martin Cothran esclarece que a História é especialmente boa em dizer-nos quem nós somos, mas diz pouco ou nada sobre o que devemos ser[15]. Ela diz-nos o que aconteceu, mas não o que deveria acontecer. Esta outra tarefa pertence primordialmente à Literatura.[16] Uma educação deve preocupar-se com sabedoria e virtude.


Alguém pode perguntar-me como a alma pode ser nutrida, já que, para o corpo, temos uma vastidão de opções de alimentos. Muito bem, a alma humana é nutrida por e com ideias e verdades. Tal como a alma é invisível, as ideias são abstratas e não podem ser vistas. Porém elas são bem reais, e têm atuação evidente na vida do homem. Pense na ideia de amor. Você pode vê-la ou apalpá-la? É certo que não. Mas ousaria dizer que ela não existe? Ela existe de fato, e tem atuação na realidade. Não seguiremos, aqui, pelo caminho de profundas reflexões filosóficas a que isso poderia levar-nos, e creio que você já possa compreender minimamente essas coisas. E há uma longa lista de outras ideias: verdade, justiça, beleza, ordem, disciplina, honra, virtude, sabedoria, liberdade, personalidade… Você pode ver com seus olhos físicos alguma delas? Não, mas pode vê-las com os “olhos da alma”. E só porque não pode vê-las fisicamente, não significa que elas não estejam em ação no mundo e em você.

Pois bem, uma educação completa está centralizada em ideias. A paideia grega[17] visava preparar os alunos para discutir noções abstratas, preparação somente alcançada por meio do desenvolvimento interno da mente e da alma. O termo paidevo (possivelmente equivalente ao latim educare) carrega em seu núcleo a ideia de “instruir”, “educar”, “formar” e “ensinar”, mas também a de “formar a inteligência, o coração e o espírito”. Ainda que possa surgir sempre a questão sobre como é possível fazer isso, isto é, formar a alma, o coração e a mente de uma pessoa, ainda assim não devemos perder de vista o fato de que tal coisa é perfeitamente possível (o que já está mais que comprovado, visto ser um dos pressupostos do sistema de educação mais completo e vigoroso que jamais existiu). E não só é possível, como é também necessária — isto é, sem ela, não pode haver um uso apropriado das faculdades mentais, morais e espirituais. Cabe a nós buscar, então, como melhor executá-la.

Este processo, é claro, não visa tornar o aprendiz um agente meramente passivo do aprendizado, pois seu fim último é habilitá-lo a agir “naturalmente” de acordo com o que aprende. Uma educação baseada na contemplação de ideias e verdades, tema sobre o qual buscarei tratar num artigo posterior, visa preparar o aprendiz a incorporar ou encarnar as ideias de sua própria maneira. Mesmo escritores modernos seculares sobre educação (Michel de Montaigne, John Locke, Jean-Jacques Rousseau e Immanuel Kant) reconheceram princípios semelhantes, de modo que, em seus ensaios sobre educação, Montaigne aconselha que o estudante não simplesmente ouça e receba sabedoria, baseado na autoridade, mas que também compreenda o valor da dúvida, de adquirir entendimento “independentemente”, e ser capaz de aplicá-lo em novos e inesperados contextos:

Sabemos como dizer: ‘Isto é o que Cícero disse’; ‘Isto é moralidade para Platão’; ‘Estas são as ipsissima verba de Aristóteles’. Mas o que nós temos a dizer? Que julgamentos nós fazemos? O que nós estamos fazendo? Um papagaio pode falar tão bem quanto nós.

Mark William Roche, em sua obra Why Choose the Liberal Arts?[18], explica que Locke eleva a apresentação do estudante de suas próprias ideias e seu engajamento em discussões “para trás e para frente” com o professor, o que deixa “impressões mais vivas e duradouras” do que ouvir silenciosamente e com sono às aulas. O tema é ainda mais acentuado em Rousseau, já que o aprendizado ativo e o engajamento existencial estão entre os princípios primordiais de sua pedagogia. É claro que há numerosos motivos para que alguém como eu discorde deste autor, mas veja que ele igualmente reconhece que “o desejo de aprender” e a “faculdade de adquirir o saber” estão entre os mais elevados valores da educação. De semelhante modo, Kant elevou a ideia de que o aprendiz deve ser ativamente engajado no processo de descobrir verdades significativas. Para ele, ser educado, a fim de ser de fato esclarecido e livre, é ter desenvolvido a própria capacidade para a razão e estar disposto a usá-la “sem a direção de outro”. Diz ele então:

“Sapere Aude! [Ouse conhecer!] Tenha coragem para usar seu próprio entendimento! Este é o lema do Iluminismo.

Talvez você já tenha notado a calorosa ênfase na razão humana que caracteriza o discurso destes autores. Na história da educação, isso torna-se mais vívido a partir do século 15 e, embora tenha suas virtudes, muita cautela exige de nós. A educação de acordo com os moldes que tenho descrito valoriza a razão, e, dessa forma, é contrária às tendências anti-intelectuais que, de tempos em tempos, ganha seus próprios porta-vozes. Logos, ethos e pathos estão unidos num todo organicamente integrado. Isto é, nossas faculdades racionais, morais e emocionais são parte de um mesmo microcosmos e devem ser igualmente treinadas e nutridas. Ser bem educado resulta em equilíbrio entre esses segmentos. Nenhum deve ser enfatizado em detrimento de outro. Se a obsessão com o corpo é censurável, também o é a obsessão com a mente e com as emoções. Isso leva-nos a um conjunto de outras considerações importantes sobre a existência humana e a educação, como os princípios da ordem e da disciplina, porém também os deixarei para o próximo artigo. Resta-nos dizer apenas que a educação nos moldes aqui apresentados, isto é, “clássica” ou “liberal”, opõe-se também ao racionalismo. Mas o exame cuidadoso de ideias sempre foi de importância na educação, talvez especialmente desde os tempos de Sócrates, que convidava seus interlocutores a um diálogo para então demonstrar as falhas em seus raciocínios (ironia) e “dar à luz ideias” (maiêutica). Desse modo, a corrente filosófica da educação clássica dá ampla ênfase a um modo socrático de instrução, que é um processo dialético de encontrar fraquezas e inconsistências no entendimento de uma pessoa e, então, por meio de uma “reconstrução”, clarificar e purificar aquele entendimento.

Como já estabelecemos, ideias e verdades são abstratas, e, portanto, só podem ser “encontradas” ao serem incorporadas ou encarnadas no mundo material. A ideia de justiça pode ser encarnada numa ação ou uma obra literária, ao passo que a ideia de beleza pode ser incorporada num artefato ou obra de arte. E assim por diante. Baseado na ideia de que o ser humano só pode aprender e tornar-se virtuoso por meio da imitação[19], e de que só se pode aprender movendo-se dos “particulares” (coisas específicas e concretas) para os “universais” (ideias gerais e abstratas), então a contemplação e o estudo cuidadosos de “modelos” e “tipos” é de importância ímpar no seu aprendizado. Como isso se parece na prática, hei de trazer no próximo artigo. Você perceberá que isso faz todo sentido, e que este processo está presente em sua própria vida desde o nascimento. Uma das razões por que a educação clássica é tão enfocada em grandes textos e obras de arte é precisamente a importância que dá a um adequado aprendizado de ideias que torna uma pessoa sábia e virtuosa.

Parte 1

Parte 3


[1] O Que há de Errado com o Mundo?, IV.4.

[2] Émile Durkheim, Sociologia, Educação e Moral, p. 17.

[3] “Conhecimento Poético”, por exemplo, um conceito aristotélico-tomista basilar para a educação clássica, é uma scientia poetica.

[4] Na educação grega, as “disciplinas encíclicas” (ενκυκλιος παιδεια), ou “ciências liberais” (ελε νθερια επιστημαι), formam o ciclo de estudos disciplinares que ministram para a educação da juventude e que são preparatórios para os estudos liberais superiores, coletivamente chamados de “filosofia”. Essas ciências vieram a ser a gramática, a retórica, a dialética, a música, a aritmética, a geometria e a astronomia, embora não houvesse qualquer limitação numérica. Elas passam, mais tarde, para o sistema educativo romano como as artes liberales, e, na Idade Média, são divididas em duas partes nomeadas de trivium e quadrivium.

[5] The Lost Tools of Learning, 1947.

[6] A palavra “cosmovisão” (do alemão Weltanschauung, cunhado pelo filósofo alemão Immanuel Kant no século 18) talvez seja uma palavra mais apropriada. O termo alemão também já foi traduzido por “filosofia de vida” e “intuição do mundo”. Talvez seja importante pontuar que T. S. Eliot, ao falar sobre educação, afirmou que “devemos derivar nossa teoria de educação de nossa filosofia de vida”, e que o “problema torna-se um problema religioso”. A ideia de que toda pedagogia pressupõe uma visão da realidade (ontologia) e do homem (antropologia) é igualmente instrutiva para entender-se a questão toda.

[7] Em O Deus que Intervém, Francis Schaeffer assevera que “nas nossas formas modernas de educação especializada, existe uma forte tendência a perder o todo nas partes, e, neste sentido, podemos dizer que nossa geração produz poucas pessoas realmente educadas. Educação verdadeira significa pensamento pela associação de várias disciplinas, e não apenas ser altamente qualificado em determinado campo, como um técnico deve ser” (p. 30).

[8] James Pycroft é quem elucida essa distinção em seu ensaio de 1847, The Advantages of Classical Education. A formação da mente é trabalho das artes liberais, ao passo que o preenchimento da mente é negócio das humanidades, ou os clássicos (isto é, os “grandes livros” que compreendem o corpo de conhecimento e sabedoria da civilização ocidental acumulados ao longo da história).

[9] De fato, por ser deliberadamente metafísica e “logocêntrica” (isto é, centralizada numa busca pelo Logos, que é o princípio que unifica todo conhecimento e toda ação), a educação clássica é o oposto da educação progressista, que nega a possibilidade de um todo unificado de conhecimento. Apesar disso, também opõe-se fundamentalmente a filosofias educacionais tais como o pragmatismo e o racionalismo.

[10] Por outro lado, o pragmatismo é marcado por uma grande ênfase no treinamento vocacional. Uma educação genuína, embora valorize o treinamento para uma carreira, não está centralizada ou reduzida a ela. Ademais, somente uma educação que não é pragmática pode ser efetivamente prática.

[11] What is Classical Education?

[12] A Abolição do Homem, p. 14.

[13] 1104, B.

[14] Das Leis, 653.

[15] What is Classical Education?

[16] Ele explica que a História e a Literatura (junto à Filosofia) formam aquilo que chamamos Humanidades. Ao passo que as “artes liberais” são principalmente habilidades que desenvolvem nossa capacidade de adquirir conhecimento das coisas, as humanidades (cujo estudo é dirigido pelos “grandes livros”) é aquele conteúdo clássico que toda pessoa deve aprender primordialmente.

[17] A palavra grega paideia (παιδεια), embora adquira sentidos distintos já no período clássico, refere-se aqui à educação e a aculturação geral das crianças na antiga sociedade grega. Ela indica mais que um mero treinamento técnico ou para uma carreira. Na antiga Grécia, significava o completo processo de tornar-se um cidadão maduro e em pleno funcionamento na vida civil e social. Paideia, παιδαγωγός (“pedagogo”) e παιδαγωγία (“pedagogia”) provêm da mesma raiz παις (“criança”). No moderno movimento de “educação clássica”, a transmissão de cultura é vista como um aspecto central da tarefa educacional.

[18] Pp. 7,8.

[19] Do grego mímeses (μίμησις) e do latim imitatio, essa imitação está longe de ser mera mímica. É clássica e cristã e ideia de que só podemos aprender por meio da imitação, porém não imitação da forma externa, e sim da ideia interior; não de uma ação primordialmente, mas da ideia expressa nessa ação. A meditação e a contemplação são especialmente importantes nesse contexto. Toda arte e toda habilidade sempre é adquirida por meio de um processo que vai desde a percepção da ideia por meio dos sentidos (como quando vemos uma obra de arte ou ouvimos uma bela música) até a representação da ideia da nossa própria maneira.

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